domingo. (Taken with instagram)
um cronópio pequenininho procurava a chave da porta da rua na mesa-de-cabeceira, a mesa-de-cabeceira no quarto de dormir, o quarto de dormir na casa, a casa na rua. por aqui parava o cronópio, pois para sair à rua precisava da chave da porta.
o que eu não entendo é ele achar que não tem coração. sempre que me perguntam sobre seu nível de periculosidade, respondo sem titubear: “inofensivo. ele tem um coração lindo. lindo e enorme.” talvez seja isso mesmo… um coração grande, tão grande que as batidas tomam conta de tudo e os olhos desatentos penam a perceber sua presença. se tenta ficar estático, num movimento contínuo ele flutua — mais um sinal de que o coração está lá. e bate forte.
dos mentirosos, o mais sincero. dos chefs de cozinha, o mais ousado. dos filhos da puta, o mais sortudo. das coincidências da vida, a mais curiosa. dos piores amigos, o melhor. dos fumantes, o mais saudável. dos menores, o maior. dos sem noção, o mais inofensivo. das saudades, a mais recente. a que vai durar.
durou o tempo de uma música ou de um cigarro na varanda, contando histórias sobre merda na piscina do vizinho, e saiu. com um abraço mal dado muito bem dado, ele saiu. the dog days are over, pequeno maia, so you better run. o mundo é teu!
-
31.01.2011
essa sou eu: mais ou menos despenteada, pequena de estatura e nenhuma tentativa de suicídio — mais por poesia e por mendes campos que por verdade.
—
como, às vezes, ao surgir do dia, o homem se descobre miraculosamente perdoado de todos os crimes, crimes não, de todas as coisas feias que cometeu. que nem cometeu, que deixou acontecer. quem nos perdoa, não sabemos. talvez seja assim: o sofrimento se junta, vai se juntando dentro da gente, lacerando, doendo, até que um dia a dor é tanta que nos pune. então, ficamos perdoados. puros, recomeçamos de alma nova, passada a limpo como um exercício de escola.
motoristas de ônibus são animais oportunistas.
motoqueiros são animais oportunistas e sem amor às suas mães.
quem dirige carro rebaixado nunca dá seta e é um animal oportunista.
o trânsito de joão pessoa está me transformando num animal oportunista
— mas eu ainda dou seta.
reciprocidade.
estou quase certa de que sou um menino que tem medo de escuro e de papai noel, sente o cheiro dos gostos e os gostos dos cheiros, fica doente toda semana e é hipocondríaco. odeio cócegas. segundo minha mãe, uma das primeiras palavras compreensíveis que prununciei foi “bobagem”, e continuo falando muito dela, até hoje. tenho uma timidez recatada, que não fala muito, mas às vezes sai de casa com muita vontade de gritar. o andar engraçado é vestígio dos dias bradantes de acanhamento.
gosto de escova de dentes nova, cheiro de gasolina, de terra molhada, de comida boa, de brinquedo novo, mas odeio cócegas. palavrões escritos e falados, neologismos, letras minúsculas, meticulosamente posicionadas e com pontos finais: daí vem o medo de no fim da vida só me restarem escrúpulos. odeio cócegas. detesto dois canudos: por acaso eu tenho duas bocas?
acho que a bolsa da minha mãe estourou cedo demais ou vim com defeito já de fábrica: consigo encostar a nuca na parte anterior do joelho e lamber o cotovelo, dentre outras excentricidades elásticas. e odeio cócegas.
posso dizer que sou diletante ou a negação faz parte da modéstia? diletante sou, pois. e nem um pouco modesta. fotógrafa de nuvens, cantora de chuveiro e desenhista de papel de pão. hay unanimidad? soy contra. odeio cócegas, amo a boa música e os bons filmes, mas isso não importa, não é mesmo? quem dita os papéis sou eu, o conceito fica extremamente subjetivo.
eu não sou sua filha, nem sua amiga e não me impressiono com facilidade. não me amole. (ok, eu admito. é tudo birra. sou uma manteiga derretida full-time.)
a propósito… já disse que odeio cócegas?
—
[adaptação de um texto que escrevi em abril de 2007. no original, eu também falava de comunismo, direta, esquerda, ideologias e revolução mas acho que perdi essa guerra.]
há pessoas que perdem lugar na fila, por delicadeza. outras, até o emprego. há as que perdem o amor por amorosa delicadeza. sim, há casos de pessoas que até perderam a vida, por pura delicadeza. não é certamente o caso de rimbaud, que se meteu em crimes e contrabandos na áfrica. o que ele perdeu foi a poesia. e isso é igualmente grave.